“O Yôga, o AVC e Eu”, por Ana Paula Silva

Quase todos os dias alguém partilha comigo sobre os efeitos, as conquistas, as mudanças, as coisas que ocorrem após a iniciação na prática do Yôga. Eu sempre alerto para que o Yôga é forte, ele acelera o nosso karma e muda o nosso dharma. Quem não gosta muito de mudanças, superações não costuma se identificar com esta filosofia prática de vida.
Yôga requer coragem, força interior, receptividade ! Talvez não soubesse desta parte…

Ana Paula Silva ” aceitou ” a proposta, escreveu um testemunho que me emocionou ao ler, pois Paula não é o particante comum, mas alguém que já sofreu um AVC, alguém que tem as suas limitações fisicas há já alguns anos. No entanto o pouco tempo de prática já mudou o seu quadro de vida.

O YÔGA, O AVC E EU
Por Ana Paula Silva

Quem sofreu um AVC sabe que, tão importante como curar as sequelas físicas, é curar as feridas da alma.

Podemos fazer fisioterapia intensamente, insistir em todos os exercícios recomendados, mas se não cuidarmos também das nossas emoções, dos nossos sentimentos e principalmente dos nossos pensamentos, nunca conseguiremos atingir completamente o nosso objectivo.

As sequelas físicas são as mais visíveis e modificam no imediato o nosso dia-a-dia.

Mas o AVC deixa-nos outras marcas, por vezes só visíveis para nós mesmos.
Como ficamos, como nos sentimos, como reagimos a esta nossa nova realidade?

Todas as pessoas que sofreram um AVC e ficaram com sequelas motoras ou cognitivas (quase todas!) têm, nalguma fase da sua reabilitação, em comum uma companhia: a solidão.
Por vezes, mesmo rodeada de pessoas sentia uma distância enorme entre o meu novo mundo e o dos outros.

Começou a tornar-se urgente para mim, tratar das minhas sequelas invisíveis.
Comecei a perceber que era um erro pensar que me sentia triste ou deprimida porque os outros não me compreendiam ou porque os outros nunca tinham passado por um AVC, e portanto seria difícil eles perceberem o que eu estava a passar.

Os outros. Sempre os outros. Passava mais tempo a pensar nos outros e naquilo que eu achava que eles não faziam bem, do que em mim.
E percebi que, enquanto continuasse a concentrar-me e a dirigir as minhas energias para os outros, estava a desperdiçar tempo.

Não eram os outros que tinham que mudar.
Eu é que tinha que mudar a forma como eu reagia à minha realidade.
Sou eu que tenho o AVC , não são os outros.
Só eu posso, só eu tenho o poder de modificar a minha vida. Só eu posso curar as minhas sequelas físicas e emocionais.

Todos temos dúvidas, conflitos internos.
Mas aqueles que atingem os seus objectivos, não vivem apenas para essas dúvidas, não estacionam aí, não se mantêm nos conflitos, não se concentram nos outros: focam-se em si mesmos e no que querem.

E tentei começar a lidar assim com os meus pensamentos negativos.
Quando eles surgem, substituo-os com uma acção positiva, ou penso em algo de bom que me aconteceu..

Só o facto de conseguir fazer isto, dá-me auto-confiança e a certeza de que posso lidar com qualquer situação.

Esta minha mudança foi acontecendo, e continua a acontecer todos os dias, é um processo de evolução.
É como se eu estivesse em construção: tal como cuido do meu físico, alimento também a minha mente com bons pensamentos e bem definidos sobre o que quero para mim.

Não quero na minha vida pessoas tóxicas, negativas, as que não me trazem boas energias.

As pessoas tendem a pensar que os desabafos, são uma forma de libertação. Eu vejo-os como uma prisão.
Queixar-me do meu AVC, do que a minha vida mudou, do que sofro, faz-me focar em quê? Na dor, na auto-compaixão.

E se em vez dessas queixas, eu começar a dizer: hoje o meu dia vai correr bem, vou conseguir levantar mais o braço, vou andar mais metros sem apoios, vou acabar de ler aquele livro tão interessante, vou fazer uma boa sobremesa para o jantar, estou-me a focar em quê? Nos meus objectivos, nas coisas boas que eu quero na minha vida.

É óbvio que nem todos os dias consigo ser tão positiva.
Mas o treino e a insistência em pensamentos bons, funciona como a fisioterapia: um dia , sem esperar, os resultados acontecem.

E toda esta minha nova forma de pensar se deve a uma práctica milenar: o YÔGA.

Há uns meses atrás, uma amiga que também sofreu um AVC, falou-me que tinha iniciado umas aulas de yoga e que estava a sentir-se muito bem. Sugeriu-me que eu experimentasse.

Eu achava que seria impossível fazer Yoga devido às minhas sequelas físicas (hemiplegia direita).
Associava sempre o Yoga a posições corporais lindas mas impensáveis de fazer para alguém como eu estava.

Mas, como estou sempre receptiva a novas experiências, informei-me e encontrei perto do local onde vivo, uma Professora de Yoga, com a qual conversei sobre o que me levava a procurá-la e as minhas dúvidas em relação à práctica do Yoga.

Ela propôs-me uma aula a sós com ela, e comecei a perceber que no Yoga o menos importante são as posturas.
O Yoga é uma forma de estar na vida, de procurarmos o auto-conhecimento, de encontrarmos o nosso equilíbrio. Tudo o resto, as posições, são apenas um reflexo do que conseguimos atingir através da meditação, da reflexão, da nossa evolução, da expansão da nossa consciência.

Comecei então, a praticar yoga em aulas de grupo, com pessoas que não têm nenhum tipo de deficiência física.

E a minha mente, a minha forma de reagir aos problemas que o AVC me tinha trazido, foram-se modificando.

“O Yoga é uma aprendizagem sobre nós mesmos, o melhor software à superfície da terra.
Muitas vezes apenas olhamos para fora de nós, e não aprendemos sobre quem realmente somos, nem exploramos os nossos verdadeiros potenciais internos”. (sic Lalita Ana Luísa Paulo, Profª Yôga).

E por falar nos nossos potenciais por descobrir, partilho convosco , uma conquista muito importante, que consegui com a ajuda da prática do Yoga, e que eu sempre achei impossível de voltar a fazer desde que tive o AVC.

Passo a explicar:
Quando iniciamos a aula de Yôga, sentamo-nos no chão, com as pernas cruzadas.
Depois de meditarmos com mantras, de fazermos vários exercícios respiratórios e alongamentos, passamos da posição de sentados para a posição de pé.

Nesta altura a Profª ou uma colega, agarravam-me pelas mãos e puxavam-me para eu me conseguir levantar.

Desde que tive o AVC nunca mais me consegui levantar do chão sem o apoio de alguém ou de algo que estivesse perto de mim e a que eu me pudesse segurar. Aliás, na verdade não me sentava sequer no chão.

A Ana, a minha Profª, diz-me sempre nas aulas: sempre que eu não conseguir fazer algum movimento, visualizo-o, imagino que naquele momento o meu corpo está a executá-lo, na perfeição.

E eu lá fui visualizando, vendo como se fosse numa tela o meu corpo a levantar-se do chão, graciosamente, sem ajuda de ninguém, como eu faria se não tivesse nenhuma sequela do AVC.

Mas, há duas aulas atrás, quando chegou o momento de me levantar, não quis ajuda de ninguém.
E o meu corpo, tal como eu tinha imaginado em tantas aulas, ergueu-se, sozinho, sem apoios, sem ajuda.
Que emoção, que felicidade, que sabor a vitória! Indescritível!!!
Há 6 anos que não me levantava sozinha do chão!!!

Acho que esta é a melhor forma de descrever o que o Yoga está a fazer na minha vida.

Obrigado Ana e obrigado a todos os meus colegas pela energia positiva e contagiante que sempre encontro em vocês. Obrigado por me devolverem a esperança!

Ana Paula SIlva

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